terça-feira, 24 de março de 2009

Eudo de Volta


Formado em filosofia, teologia, ex-professor e hoje cuidador de idosos no Lar dos Vicentinos, Eudo Lustosa Brasil, 52, natural de Rio Branco – Acre, atuou durante 20 anos no estado em defesa dos direitos humanos e cidadania e nunca largou os ideais petista. Eudo coordenou o Centro de Defesa dos Direitos Humanos do Acre (CDDH). Foi um período que colecionou muitos inimigos, pois fez cerca de 500 denúncias à justiça por tráfico de drogas, pedofilia, maus tratos entre outros crimes envolvendo policiais civis, militares, políticos, membros do judiciário e até a família de Hildebrando Pascoal [acusado de comandar o esquadrão da morte]. Dos casos comprovados e apresentados a justiça por Eudo, menos de 100 foram resolvidos até hoje. Eudo Lustosa combatia a pedofilia com rigor: “Eu fui uma das primeiras pessoas a denunciar Antônio Manoel [condenado a 60 anos de prisão acusado de pedofilia] à Tapajós [Maria Tapajós, Juiza da Infância e da Juventude do Acre, morreu em 2008]”.
Em 1994, Eudo Lustosa recebeu uma denúncia na baixada da Sobral de que um médico famoso (atualmente acomodado em um órgão federal) teria feito ligadura de trompas em duas gêmeas a pedido de Hildebrando. “Eu denunciei na Policia Federal que o Hildebrando abusava sexualmente das duas meninas e ainda pagava a mãe para ficar em silêncio. Nessa época ele era coronel e comandante da PM. As meninas eu sei que a justiça mandou para Itália. Até hoje espero uma resposta da Federal”, revela Eudo. No mesmo período Lustosa apresentou ao Tribunal de Justiça acriano uma relação de pessoas influentes envolvidas com crimes de pedofilia. “Até hoje não recebi resposta; tinha gente importantíssima na minha lista”, diz Lustosa. Mas o ativista não agia sozinho: tinha a força silenciosa do juiz e hoje desembargador Gercino da Silva Filho, Ouvidor Agrário Nacional e de outros ativistas obrigados a fugir do estado para não serem executados, todos ameaçados por um grupo de extermínio formado por policiais. “A gente pagou muito caro por isso, muito caro, mas não me arrependo e eu acho que fiz justiça social”, diz Lustosa.
Em novembro de 2005, jornais de todo país noticiaram a prisão em flagrante do ativista dos direitos humanos do Acre no aeroporto internacional de Brasília. Na bagagem, segundo a denúncia, ele carregava cerca de 7 quilos de oxidado de cocaína que seriam desembarcados em Marabá (PA). A denúncia teria sido feito por anônimos a Policia Federal. A droga foi distribuída na bagagem em vários pacotes em duas malas. Pelo serviço de ‘mula’, Eudo teria recebido cerca de R$ 2 mil de acordo com informações da PF. Policiais suspeitaram do envolvimento de uma quadrilha, mas não investigaram o caso a fundo. Na época, Naluh Gouveia, hoje conselheira do Tribunal de Contas (TCE) era deputada estadual (PT) e foi uma das poucas que saiu em defesa do ativista. Na câmara de Rio Branco, Donald Fernandes que era vereador pelo (PPS) e Beth Pinheiro também do mesmo partido, disseram que o acusado poderia ser um dependente químico precisando de tratamento.

Eudo Lustosa foi condenado a 8 meses de prisão em regime fechado, mas usou os benefícios e recursos oferecidos pela justiça, ficou ainda 90 dias em cela especial na PF de Brasília. Cumpriu 2 anos e 5 meses em regime fechado no presídio Antônio Amaro e agora está no semi-aberto. Durante o dia trabalha na Secretaria de Saúde do Estado e as 7 h da noite deve está em casa, sob pena de perder o benefício. A pena encerra em outubro de 2010. “Eu acho que foi uma armação muito bem feita do pessoal do esquadrão da morte, dos meus inimigos, pra me incriminar.”

Lustosa desconfia também que a prisão tenha sido uma armação do Partido dos Trabalhadores por meio de um dos filiados que lhe era bem próximo: “O Rudney, meu compadre do PT, me ligou perguntando seu eu podia levar seis quilos de farinha pra irmã dele em Bélem (PA). Eu fui na Sobral e ele colocou tudo na minha bagagem. Mas o que mais me impressionou em Brasília quando eu fui preso é que a Policia Federal nunca me mostrou essa droga que estava nas minhas malas, nem minhas impressões digitais encontraram na droga. O Rudney está foragido até hoje, eles [ PT e esquadrão da morte] pagaram muito bem esse rapaz; ele não precisava disso”, diz Lustosa.

Na mesma semana em que foi preso, a cúpula do Partido dos Trabalhadores municipal tratou rapidinho de expulsar o militante é um dos fundadores da sigla no Acre. Assis Perreira, presidente do diretório, alegou que o partido não poderia ter em seus quadros pessoas que tivessem cometido delito previsto no Código Penal. O ex-petista nega que atuava como traficante para algum político ou quadrilha, como chegou a ser especulado. Afirma ainda que fez exames a pedido da justiça, onde foi negativo o uso e a dependência de entorpecentes.

Hoje o ex-aliado faz críticas a administração petista. “Eu acho que o PT, falta acertar com a saúde. Estado e município demoraram nas ações de combate a dengue, por exemplo. Hoje tem 9 médicos com dengue internados no Hospital Santa Juliana. A Frente Popular precisa acertar no social, investir na pobreza, na periferia, nos jovens que caem no mundo das drogas. A segurança tá muito debilitada; lá em Plácido de Castro a delegacia não tem um carro para fazer investigações. Eu acho que tem muita coisa pra mudar ainda”, diz.

Livro bomba - Pai de três filhos, casado, Eudo Lustosa conta que prepara uma obra literária onde pretende fazer revelações bombásticas, inclusive sobre a sua infância e a família. Vai escrever ainda as pressões e ameaças que sofreu e o drama de ter ficado preso injustamente. “Eu acho que o título vai ser ‘Sem Medo de Ser Feliz’ ou algo assim, ou uma bomba mesmo. Uma bomba, todo mundo vai comprar pra ver o que é”, revela o aspirante a escritor. Vai relatar também nos textos sua experiência dos 8 aos 15 anos ao lado do bispo Dom Giocondo Maria Grotti, por quem foi criado e tem profundo carinho.

(francisco costa)

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