quinta-feira, 26 de março de 2009

Não tem marido, regimento ou pressão política que me faça calar

Conselheira do Tribunal de Contas do Estado (TCE) há 1 ano, a ex-deputada estadual do PT do Acre, Naluh Gouveia, 45, sugeriu ao governador Binho Marques (PT) que o assessor especial dos Povos Indígenas, Francisco Pianko acusado de abusar sexualmente de índias, fosse afastado imediatamente do cargo até que as investigações da Policia Federal fossem concluídas. “Se eu fosse governadora, afastaria o Pianko para a devida apuração dos fatos. Depois, se houvesse necessidade e ele fosse inocentado, o colocaria de volta e ainda fazia uma homenagem pública a ele”. As declarações de Naluh, no momento em que a imagem do governo do Acre está manchada por acusações contra um dos membros do primeiro escalão, refletem como um recado aos governistas, que dizem zelar pela ética e a transparência. Naluh, diz que só entrou nesta briga por que o governo estaria tentando desviar o foco do problema, acusando pessoas inocentes, no caso a índia Letícia Yawanawá, que levou as denúncias contra Francisco Pianko ao Ministério Público Federal (MPF).“Eu não entro no mérito da questão, se houve ou não o estupro por parte da pessoa que a Letícia está denunciando. Eu entro é na defesa de quem está denunciando, por que há uma tentativa de descaracterização da pessoa que está tornando tudo isso público. A Letícia é uma liderança indígena respeitada internacionalmente”, garante Naluh.Segundo Naluh, existem dezenas de registros na Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa (ALEAC) e no Conselho da Mulher da Secretaria Extraordinária da Mulher do Estado, comprovando que Letícia Yawanawá há muito tempo denuncia todos os tipos de violência contras as mulheres e crianças índias nas aldeias do Acre e Amazonas. “Os maus tratos às mulheres e crianças, não fazem parte da cultura indígena. Há mais de três anos, Letícia, defende essas pessoas, denunciando espancamentos, estupros. Existem documentos provando isso”, explica a ex-deputada. A ex-petista, militante dos movimentos estudantis, vereadora por Rio Branco e Deputada Estadual durante 3 mandatos (todos pelo PT) afirma que ficou indignada com a nota pública redigida pelo assessor especial do Governo, Antônio Alves (Toinho), onde há claramente uma tentativa de se auto inocentar o Pianko das acusações e remeter a culpa a outras pessoas. “O governador, diz que trabalha para que o Acre seja o melhor lugar da Amazônia para se morar até 2010. Mas ninguém pode morar num lugar, onde você possa ter casas bonitas, ruas boas, pontes, ramais, se você não tiver segurança para suas crianças. De nada vai adiantar tudo isso. Ninguém pode tirar a infância de ninguém e machucar pessoas inocentes. E o que vejo é que toda vez que tem denúncias de pedofilia é feito uma muralha para descaracterizar as informações e não ir a fundo nas investigações”, diz indignada.Ac24horas - A senhora é contra a divulgação dos denunciados? Naluh – Não. Eu sou contra esse sensacionalismo barato que é feito sobre a desgraça alheia. Isso é muito doloroso, mexe com o emocional do ser humano. Essas pessoas precisam pagar, como o Antonio Manoel (ex-militante petista condenado por pedofilia) está pagando. Acho que todas as pessoas suspeitas devem ser investigadas. Tem muita gente que precisa se explicar. Que se investigue o Pianko, mas que não esqueçam de pessoas como o Mario Emílio Malaquias, os empresários Zezinho das tintas e Maurício Lisboa que também foram denunciados pelo mesmo crime.

Ac24horas - A senhora achou acertada a decisão do governador Binho em manter o assessor suspeito no cargo? Naluh – Claro que não! O Binho é um homem muito especial, que cuida das coisas do Acre com carinho e que faz uma boa gestão, mas sinceramente, foi mal orientado sobre este caso. Eu afastaria o cabra (Pianko) até as coisas ficarem esclarecidas. Depois, se ficasse provado que é inocente, promoveria o seu retorno sob muita festa. Mas não pagaria pra ver não. É bom ter certeza de que o povo sabe que você não concorda com esse negócio de agressões contra mulheres e abusos sexuais contra crianças. Ac24horas – Porque o governo quer abafar o caso? Naluh – Rapaz eu acho que o Binho não quer abafar nada, ele apenas está tendo prudência sobre as denúncias. Mas eu fico preocupada com essa prudência dele porque as denúncias vem de uma liderança indígena séria.Ac24horas - A senhora recebeu pressão de pessoas ligadas ao seu ex-partido para não atiçar essa briga? Naluh – (Risos) Quem é que teria coragem de me peitar para pedir isso? Não fico calada sobre nenhum assunto que me incomoda e que considero ilegal. Não tem marido, regimento ou pressão política que me faça calar. Falo e dou nomes. Não posso, como defensora da minoria como sempre me apresentei, ficar calada diante de denúncias como estas. A polícia vai investigar e depois vamos ter o resultado. Quem tiver certo vamos aplaudir e quem tiver errado terá que pagar pelo pecado.Ac24horas – Naluh, você tinha recuado e decidido a não falar mais sobre esse caso do Pianko? Naluh – Isso não é verdade. O que aconteceu é que nesta quinta-feira, por conta de problemas de saúde, cheguei atrasada no tribunal (de contas do Acre) e ai o Roberto Vaz disse que eu estava fugindo da imprensa. Isso não é verdade, eu não fujo da responsabilidade, ainda mais num caso tão escabroso como este.
(ac24horas)

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