segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O que podemos aprender com Campo Novo e os corpos amontoados



 Foto: RondôniaVip



Por  Sandro Colferai, professor

 
 
É segunda-feira, final da manhã, dia 13 de janeiro de 2014, século XXI. Estou aqui sentado à minha mesa lendo sobre a cognição e, num dos intervalos da leitura, abro alguns dos sites de notícia de Rondônia, afinal é mais importante o que acontece perto da gente. As notícias sobre a ação de um bando de criminosos em Campo Novo de Rondônia dominam as manchetes. Primeiro fala-se da invasão de um quartel da PM, do roubo de armamentos, de um policial baleado enquanto trabalhava, de reféns e de saques na cidade. Tudo ao estilo do cangaço moderno! Depois aparecem os relatos do deslocamento de forças especiais da PM para a região (em aeronaves!), de um confronto na estrada, e de desencontrados números, que dão conta de seis, sete, e até oito bandidos mortos.

Os relatos são curtos, urgentes, e cada site quer antes dar a informação – afinal é fundamental sair na frente… E os comentários abundam! Os internautas, ávidos por notícias frescas, parabenizam os policiais pela eficiência. Todos parecem se sentir mais seguros agora, pois há “menos oito” – como disse uma moça no seu comentário. Entre os elogios aparecem alguns temerosos. O temor é pela reação do pessoal dos “direitos dos manos” – esta uma expressão de outro comentarista. Os mortos são bandidos, e por isso mereciam morrer. Os mortos são gente que aterrorizou uma cidade inteira, baleou um policial, e por isso mereciam morrer. Só esta reação nos comentários das matérias merece uma detida reflexão sobre o estado das coisas, que nos trazem ao ponto de se comemorar a morte de oito pessoas por forças do estado.
Mas, não é isso que quero fazer aqui. O que quero é destacar o pronto reconhecimento feito pelo secretário de segurança de Rondônia, Marcelo Bessa. O reconhecimento pelo bom trabalho, que inclui a reação das polícias de Rondônia, a caçada e o cerco aos bandidos, e uma camionete cheia de corpos mostrada em todos os sites de notícias do Estado. Nos textos publicados ainda na manhã de segunda-feira Bessa já os parabenizava. Aparentemente efusivo por tudo o que acontecia, na sua página pessoal no Facebook o secretário publica, por volta do meio-dia, a tal foto do amontoado de corpos na carroceria da camionete e comenta: “Excelente trabalho! Parabéns guerreiros!”.
E aqui finalmente chego ao ponto! Os policiais reagiram, perseguiram, cercaram, um tiroteio ocorreu e os bandidos foram mortos em legítimo confronto para o qual todo policial deve estar preparado. Mas, o homem que comanda as forças policiais de Rondônia publicamente festejar um carreto de corpos, bom, aí já é demais! O secretário parece querer esquecer que é o representante do Estado que não oferece as condições necessárias para que invasões e roubos a quartéis da PM não aconteçam. É o mesmo Estado que deixa a população de uma cidade inteira à mercê de bandidos, que podem fazer policiais reféns e saquear uma cidade inteira.

Não é hora de festejar! É hora de prender os culpados e cobrar os responsáveis. Os primeiros são os caras que atiraram contra policiais, roubaram armas e ameaçaram a gente de Campo Novo. Os outros são os gestores do Estado, especialmente da segurança pública, o mesmo setor que não raras vezes precisa lançar mão de ajudas de empresários para fazer seu trabalho; cujos agentes, os policiais, precisam ser criativos para dar conta das demandas sem a devida estrutura; precisam se desdobrar para cobrir a necessidade de segurança da sociedade frente ao reduzido efetivo; e a população, que vê tudo isso, cobra um genérico investimento em segurança e desconfia que as coisas não vão se resolver. Já parece não haver confiança na polícia e registros de ocorrências mais servem como registro burocrático do que esperança na resolução de seus casos!

Comemorar gente morta, qualquer gente, não é a melhor reação, mas é sintoma. É sintoma de um estado que, ao que tudo indica, prefere viver de espetáculo do que de planejamento, preparação e prevenção. Precisamos aprender com os corpos amontoados e com a população aterrorizada. Precisamos aprender com o policial baleado e com os reféns. Precisamos prestar atenção às reações dos gestores, afinal é 13 de janeiro de 2014, século XXI, época em que cangaceiros e um monte de corpos não podem ser admitidos. Assim como a reação deve ser uma crítica aos modos de tornar efetiva a segurança entre nós, e não uma efusiva comemoração diante de pessoas mortas. Pensemos!

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