quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Rebelião no Acre é movida por jovens da periferia vulneráveis às facções criminosas

Sérgio de Carvalho

Por um outro ponto de vista, todos os ataques ocorridos no Acre, com aproximadamente 10 ônibus incendiados, casas e carros civis, não sejam de todo negativos. Mesmo com todos os sinais que a sociedade já vinha recebendo -assassinatos de agentes penitenciários, pendrives com lista de agentes e policiais na mira de bandidos, vídeos ameaçadores, entre outros- todos nós dormíamos.

O radicalismo das últimas 48 horas evidenciam o que já estava nas entrelinhas. O que estava invisível torna-se próximo e ameaçador, causando comoção pública e pressão para ações de combate, o que é positivo.

Porém, o mais preocupante em um cenário destes, é perceber que o crime organizado está fazendo sua trajetória nas periferias de Rio Branco e do interior acreano, aliciando jovens em situações de risco, atuando aonde o Estado nem sempre consegue chegar.

A cultura do tráfico vai se impondo, junto com ela, a confusão entre quem é bandido e quem é herói.

Só prestar atenção na cidade, nos bairros, abrir os ouvidos. Só caminhar pelas ruas de terra e de asfalto, nas invasões e zonas periféricas, para perceber como o tal "Bonde dos 13", nome da facção que se diz ligada ao PCC e que atua em Rio Branco, é constantemente citado entre a juventude das periferias. Não como ameaça, mas com orgulho e respeito.

De como o sonho do status alcançado pelo tráfico é recorrente nesta moçada, que é retirada da invisibilidade social e reposicionada como protagonista, mesmo de que de uma história de terror.

Em geral, são negros, pobres e em vulnerabilidade social. Uma nova ética passa a ser construída - a do tráfico e tudo que o envolve. Chefes de facções começam a ser ovacionados e, cada vez mais, ganham força nas áreas em que facções começam a se desenvolver.

A continuidade deste enredo, será a guerra entre facções, pois outras também começarão a surgir. A história se repete e é só uma questão de tempo.

O que não se percebe é que para cada jovem destes assassinados ou presos, centenas de outros estão prontos para assumir seu lugar, movidos pela ambição de qualquer tipo de status, de proximidade com o "patrão", almejando a ascensão que só o tráfico parece lhes ofertar. É uma cultura perversa.

Em todas as mensagens violentas e radicais que estes jovens ligados ao tráfico, em tom ameaçador, mandam para policiais e agentes por meio de vídeos, que viralizam nas redes sociais, existe um elemento que se deve levar em consideração para uma analise mais profunda e ousada da situação.

Em todas elas, denuncia-se o abuso de autoridade. Não se justifica, mas se compreende também a sede de vingança que estes jovens de periferias, vítimas e testemunhas de ações de policiais truculentos, nutrem contra o sistema. O oprimido também quer se opressor. Facções criminosas, acabam por assumir um terrível papel de uma falsa justiça, que não passa de uma perigosa vingança.

Parte da sociedade, assombrada, acaba por legitimar o próprio horror, por exemplo, ao aclamar a volta de Hildebrando Pascoal ou repetindo à exaustão a frase: bandido bom é bandido morto.

Uma roda infinita de violência que gera violência. O perigo que se esconde é o da sociedade justificar, também, a arbitrariedade e a justiça com as próprias mãos.

Acredito que ainda há de tempo de impedir que estas facções ganhem força no Estado. O Acre é pequeno e não merecemos este câncer.

A repressão no momento é necessária. É urgente, pois estão buscando medir forças com o Estado. Não se pode tolerar um poder paralelo.

Acreditar que somente prisões desta mesma juventude pobre, índia e negra, das periferias, irá desfazer as ações criminosas, é equivocado. Como já disse, para cada jovem preso, tem centenas de outros prontos para serem recrutados.

O caminho, ao meu ver, é repensar a política contra as drogas, oferecer uma educação de qualidade, fortalecer ações culturais nos bairros e criar oportunidades que gerem renda. Mais educação, sobretudo educação.

É utópico, com certeza é. Mas, de verdade, não vejo outros caminhos.

O que vemos é a consequência do que este sistema falido e doente não para de gerar. Temos que dar os primeiros passos e entender que a atual política de guerra contra as drogas só aumenta o poder do trafico.

Entender que a educação nos moldes atuais não gera resultados. Entender que estes rapazes e moças invisíveis também tem seus sonhos, medos e buscam oportunidades.

Sem este entendimento, mas pautados apenas na repressão, que já disse ser ultra necessária no momento, não mudaremos nada.

Provável, só agravarmos o problema.


Sérgio de Carvalho é escritor e cineasta 


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